Síntese histórica

A vocação religiosa de D. Luciano parece ter se manifestado bem cedo, em sua infância. Porém, D. Luciano não sabia bem, até aquela idade, se seria aviador ou padre, ou até mesmo padre aviador: [1]

Eu tinha seis anos, em 8 de setembro de 1937, dia de minha primeira comunhão. No dia 27 de agosto, junto com um dos meus irmãos, eu já fora crismado. [...] Recebida a primeira comunhão, uma senhora chamada Magnólia (empregada doméstica em casa de uma prima, pessoa excelente, negra, cheia de bondade) tomou-me pela mão e me perguntou: ‘O que é que você quer ser quando for grande?’ Lembro-me como se fosse hoje que respondi resolutamente: ‘Quero ser padre e aviador!’ Ela ficou surpresa: ‘Como?’ Respondi: ‘É isso mesmo’.[2]

Em outra entrevista, D. Luciano esclareceu opção tão inusitada: “[...] aviador, porque aprendi a admirar meu tio Luciano que morreu durante a guerra de 1914 como voluntário aviador na França”.[3]

Curiosamente, porém, conforme havia confidenciado ao padre José Comblin, D. Luciano “nunca tinha sido capaz de vencer o medo do avião e rezava o terço para dar coragem. Isso não impediu que passasse tantos dias de sua vida viajando de avião”.[4] Comentando sobre esse receio, ele dissera:

Em parte, esse medo já está superado. No fundo, o medo é medo de morrer. Mas quando se compreende não só que se deve morrer, mas que se pode morrer a qualquer momento, passa-se a sentir menos medo de avião. Por outro lado, por que logo de avião, quando em outras circunstâncias é mais fácil sentir a fragilidade da vida? Além disso – mas é uma experiência infantil – tendo meu tio Luciano morrido voando, sempre me pareceu que est meio era perigoso. [...] Penso que recebi uma graça: como viajo muitíssimo (nos primeiros oito meses deste ano, já precisei tomar o avião certa de 120 vezes), vejo muita gente que viaja pela primeira vez e sente medo. Então procuro ajudá-las a superar o medo, mas só para tornar-me útil a outros que passam pela mesma prova. De qualquer forma, fica sempre a pergunta: ‘Quando é que Nosso Senhor vai querer que eu vá vê-lo?’ Uma das respostas que me ensinaram é esta: ‘Senhor, que minha última viagem seja para ir ter contigo’.[5]

Mas não foi o temor de voar, e sim uma experiência de fé, continuamente acompanhada pelo jesuíta Félix Almeida, seu diretor espiritual no Colégio Santo Inácio, que levou o ainda adolescente D. Luciano a optar pela consagração religiosa:

Eu não construía altarzinhos, nem dava a impressão de estar condenado a essa vocação. Não. Foi um processo interior que, de maneira adequada a um menino, me aproximou de Deus. Não tinha a intenção de entrar num Seminário, porque não me parecia feito para mim. Eu amava a liberdade, andar pelos montes, caminhar. Em duas ocasiões, ajudei a formar um grupo de escoteiros; íamos dormir na floresta, caminhar horas e horas, escalar picos, que no Brasil não são muito altos. Uma vez, escorregando num terreno viscoso por causa da chuva, caí ao longo de um declive do morro da Gávea, que domina o Rio de Janeiro. Dei-me conta de que talvez Nosso Senhor quisesse algo de mim, porque fui parar na borda do precipício. Eu tinha quinze anos. [...] Foi o que resolvi. Fui ter com minha mãe para comunicar-lhe a minha decisão. Ela me fez observar que o meu pai dificilmente consentiria. Procurei papai e lhe disse: ‘Peço-lhe permissão para entrar no Seminário dos jesuítas’. ‘Por que?’ ‘Este é o meu desejo.’ Respondeu-me: ‘Se me tivesses pedido para compreender a tua decisão de casar, talvez eu respondesse que és muito jovem. Mas, se que queres ir para o seminário, fica sabendo que deves ser coerente com esta escolha em tudo o que ela implica’.  [...] Posso afirmar que nunca mais pensei em outro caminho e nunca tive dúvida alguma acerca da minha vocação. Provações, sim, muitíssimas, mas dúvidas, nenhuma.[6]

Entretanto, ao refletir mais acuradamente sobre seu percurso biográfico, D. Luciano traduziu sua vocação sacerdotal como culminância de seu profundo desejo de seguimento de Cristo: “[...] aos poucos, isso deu lugar uma vontade muito maior, não só de ser padre, mas de seguir Jesus Cristo. A parte sacerdotal é antiga, mas não é primária: acho que o mais importante foi a pessoa de Cristo e o fascínio que Ele exercia e sempre exerceu na minha vida”.[7]

 


[1] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 44.

[2] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: OLIVERO, Ernesto. Unidos em favor da paz: diálogos com D. Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 1991. p. 31-32.

[3] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: Entrevista digitada ao Pe. Fernando Torres, cmj, revista Mision Abierta. 11 jun. 1995. Mimeo.

[4] Depoimento do padre José Comblin. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Deus é bom: homenagem a Dom Luciano. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2006. p. 97.

[5] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: OLIVERO, Ernesto. Unidos em favor da paz: diálogos com D. Luciano Mendes de Almeida. Op. Cit. p. 34.

[6] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: OLIVERO, Ernesto. Unidos em favor da paz: diálogos com D. Luciano Mendes de Almeida. Op. Cit. p. 32-33; 35.

[7] DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Apaixonado por Cristo e pelos pobres [Entrevista com D. Luciano Mendes de Almeida]. Mundo e Missão, set. 2001. p. 20. Em entrevista enviada ao periódico Mision Abierta, D. Luciano escreveu: “Compreendi que o sacerdócio era um dom que dependia do chamado da Igreja e que a mim competia consagrar-me a Deus e deixar aos superiores orientar-me conforme o ensinamento de Santo Inácio sobre a indiferença nas mãos de Deus. Fiquei muito feliz percebendo que a entrega a Deus pelos votos religiosos uniu-se ao chamado para a ordenação sacerdotal. Nunca pensei – nem sonhando –, que no futuro seria ordenado bispo. Aliás, o jesuíta cresce na mística de renunciar por voto ao episcopado”, cf. ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: Entrevista digitada ao Pe. Fernando Torres. Op. Cit.