Síntese histórica e memória de fé

Imediatamente após o seu falecimento, D. Luciano foi associado a um perfil de santidade não só bastante valorizado pelo catolicismo contemporâneo, como também em sintonia com as premissas éticas de um Ocidente laicizado – a prática da solidariedade, voltada especialmente para os mais desfavorecidos. Sob esta perspectiva, não é incomum que D. Luciano seja aproximado de outra figura relevante do episcopado brasileiro, D. Hélder de Barros Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, inclusive pela convergência das datas de falecimento:

Em um mesmo dia [27 de agosto], a Igreja Católica brasileira se lembra de dois homens que deixaram um legado de colegialidade, abertura ao novo e entrega pelos mais pobres. D. Hélder e D. Luciano, hoje, são exemplos de cristãos convictos, de seres humanos que entregaram suas vidas pela dignidade das pessoas, na humildade e na pobreza do serviço aos mais humildes e mais pobres. Nas palavras de D. Marcelo Pinto Carvalheira, arcebispo emérito da Paraíba, D. Hélder – assim como D. Luciano – foi testemunha de ‘uma Igreja que se torna solidária com o povo, com as grandes causas do povo, e não uma Igreja distante, querendo impor pequenas normas’.[1]

Contudo, a aproximação entre D. Hélder Câmara e D. Luciano revela-se apenas parcial, como indicou Cândido Mendes: “[...] é inevitável que a data [de falecimento] marque de si uma superposição de dois recados fundadores da Igreja no Brasil pós-conciliar. [...] [Mas] é dentro de um protagonismo quase de contraste [com D. Hélder] que o carisma da doação de D. Luciano caminhou, pelo exemplo mais do que pela palavra, pelo silêncio do encontro mais do que pelo protagonismo ostensivo [...]”.[2] Verifica-se assim que D. Luciano adotava uma postura de descentramento identitário, de apagamento de si na prática do serviço ao próximo, sendo inúmeros os depoimentos que descrevem como lhe era prioritário fazer-se presente junto ao sofrido cotidiano de tantas pessoas anônimas, ao invés de atuar, de forma exponencial, em fóruns nacionais e internacionais:

O que mais chamava a atenção era a sua disponibilidade, a permanente preocupação por servir, ser útil, ajudar. Em lugar de fugir dos problemas, como fazem tantas autoridades, ele ia ao encontro deles. Quando sabia de um caso de injustiça, de opressão, ou de abandono dos pobres, ali estava ele imediatamente. Na frente da luta e nunca buscando desculpas edificantes [...] Nada tinha de líder popular e jamais procurou a popularidade, o que era bem o contrário da sua personalidade. Estava ali na frente da massa dos pobres com toda simplicidade, como se fosse nada mais do que um no meio dos outros. Mas todos sentiam a sua presença e sentiam que debaixo das aparências fracas havia uma imensa força, que era na realidade a força de Deus. A concentração do povo no seus funerais foi um sinal da imensa confiança e da grande admiração que suscitava, porque era a força de Deus no meio de seu povo.[3]

Contudo, as referências de santidade mais caras a Dom Luciano apresentavam-se um pouco distintas de tais modelos de liderança eclesiástico-pastoral, as quais primavam pelo profetismo comprometido com as causas populares. Suas inspirações advinham, sobretudo, da figura de Jesus, bem como de seus seguidores, como servos sofredores: “O texto de S. Paulo, ‘Cristo que não considerou privilégio a sua condição divina, mas fez-se servo até morrer’ (Fl 2,9) é fundamental. Porque não podemos mais considerar um privilégio a nossa condição de estar na graça de Deus, mas temos de assumir o abatimento (kénosis) de Cristo neste mundo em favor dos irmãos. É grande a alegria do justo que coopera assim na salvação de seu irmão. A vida é assumida na solidariedade”.[4] Como indica o teólogo Francesco Sorrentino, é possível considerar que

O interesse de Dom Luciano pela figura do Cristo sofredor está, profundamente, ligado à sua história pessoal. [...] sente-se questionado pelo modo com que pessoas boas, muito próximas dele, lidam com a doença. Duas em particular: o colega jesuíta, Salvatore Fellini, e a mãe, Dona Emília, mulher de fé e muito caridosa, falecida após longo período de coma. Finalmente, a trágica experiência do acidente automobilístico, por um lado, deixa no coração e no corpo de Dom Luciano as marcas do sofrimento humano, por outro, o incentiva a uma entrega maior em favor dos irmãos. [5]

 


[1] D. Hélder faleceu em 27 de agosto de 1999, com 90 anos de idade.

[2] MENDES, Cândido. Dom Luciano, o Irmão do Outro. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2007. p. 97.

[3] Depoimento do padre José Comblin. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Deus é bom: homenagem a Dom Luciano. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2006. p. 96.

[4] ALMEIDA, Luciano Mendes de. In: Jesus Cristo: luz da vida consagrada. 2. ed. São Paulo: Loyola, 1997. p. 34.

[5] SORRENTINO, Francesco. “Em que posso servir?” A vocação cristã como serviço no testemunho e nos escritos de Dom Luciano Mendes de Almeida. Dissertação (Mestrado em Teologia). Belo Horizonte: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, 2014. p. 78.