Síntese histórica

Em seu percurso biográfico, Dom Luciano, obviamente, defrontou-se muitas vezes com a morte, que não deixaria de acometer a seus entes mais queridos. Mas junto com o sofrimento pela perda sofrida, ainda que resignado pela confiança em Deus, o falecimento dos que amava fortaleceu ainda mais em Dom Luciano a valorização da dimensão espiritual da vida: “Dom Luciano confidenciava-nos que, diante do seu irmão João, morto aos 36 anos, varreram-se-lhe do coração as vaidades. O realismo dessa morte prematura deu-lhe a dimensão do valor da existência”.[1] Outras duas mortes muito sentidas por D. Luciano foram de sua mãe, D. Emília, e de sua irmã Elisa:

Todos passamos por situações difíceis quando pessoas queridas são chamadas por Deus. Como sacerdote, considero entre os ministérios sagrados, um dos mais importantes, estar ao lado dos que vão comparecer diante de Deus. São momentos de fé, de solidariedade, de sofrimento e de conforto fraterno. Recordo a ida para Deus de muitos parentes e amigos e a grande edificação espiritual de pessoas cuja vida santa se revelou ainda mais no fim da existência terrena e na hora da morte. Nessa ocasião, muitas vezes manifesta-se a beleza da fé, a confiança em Deus e a certeza da vida eterna e feliz. [...] Obrigado, Senhor.[2]

Paralelamente, o percurso de Dom Luciano foi pontuado por experiências pessoais de risco de morte, que culminaram em seu falecimento em 27 de agosto de 2006. A primeira delas ocorreu em 1961, época em que se encontrava na Europa, cursando o Doutorado em Filosofia. Em maio daquele ano, estava previsto que D. Luciano acompanharia um dos jesuítas em atividade pastoral, mas sendo ele auxiliar do professor de Filosofia, e com muitas outras atividades, o padre Walter Hofer o substituiu.[3] Segundo D. Luiz Demétrio Valentini, D. Luciano tinha consciência “de que Deus o tinha poupado de morrer quando ainda era jovem padre, no dia em que tinha sido escalado, no Pio Brasileiro, para acompanhar o irmão Marchi na viagem de caminhão ao norte da Itália. No acidente acontecido, acabou morrendo o Padre Hoffer, que tinha insistido em ir no lugar do ‘Padre Mendes’.”[4]

Já o segundo momento data de fevereiro de 1990, quando D. Luciano sofreu um gravíssimo acidente automobilístico na BR 356, também conhecida como “Rodovia dos Inconfidentes”. Próximo da cidade de Itabirito, “[...] o chevete em que vinha derrapou, rodopiou, bateu num caminhão-tanque e chocou-se na proteção da pista. Luciano sempre viajava ao lado do motorista; naquele dia, contudo, como precisava escrever a seu artigo semanal para a Folha de São Paulo, passou para o banco de trás, trocando com o padre Ângelo Mósena, que faleceu no acidente”.[5] Tal choque provocou-lhe o “afundamento do crânio, os dois fêmures quebrados, bem como da mandíbula e do antebraço, ruptura da aorta, além de 27 fraturas por todo o corpo, quadro seguido por infecção generalizada, contraída durante os 26 dias de internação no hospital, quando passou por 14 cirurgias”.[6] Segundo D. Antônio Celso de Queirós,

[...] depois daquele acidente a que sobreviveu, várias vezes, quando eu o aconselhava a se poupar um pouco, ele ouvia calmamente, mas depois dizia: ‘Deus me devolveu a vida depois do acidente. Então, mais do que nunca, a vida não é mais minha. Quero doá-la totalmente aos outros’. A última vez em que tivemos essa conversa, eu lhe disse: ‘Luciano, se é isto que você sente e pensa, faça isso, então, da melhor maneira possível. Esse é o caminho de Deus para você’. Ele fez muito melhor do que eu poderia imaginar’. [7]

Por fim, a entrega derradeira, quando a hepatite C contraída numa transfusão de sangue transformou-se em letal câncer no fígado. Em dezembro de 2004, D. Luciano já havia sido submetido a uma cirurgia, tentativa que, não tendo surtido o efeito desejado, foi seguida por sua internação, julho de 2006, no Hospital Madre Teresa, em Belo Horizonte, seguida de transferência para o Hospital das Clínicas, em São Paulo. No dia 9 de agosto, D. Luciano foi transferido para a UTI, pois só conseguia respirar com a ajuda de aparelhos. Três dias antes, narra o padre Lauro Versiani,

[...] celebrei com ele pela última vez [...]. Celebramos juntos e ele, abatido, permaneceu sentado, num sofá ao lado, simplesmente com a estola que pusemos nele e com a relíquia de Dom Viçoso. Eu falei: ‘Dom Luciano, hoje é a Transfiguração do Senhor’. Ele fez uma respiração profunda e exclamou baixinho: ‘Transfiguração!’ Depois também me disse: ‘Estou oferecendo tudo pela Igreja e pelo Seminário’. [...] É isto: Dom Luciano foi se identificando cava vez mais com a Paixão de Cristo”.[8]

O depoimento do padre Lauro torna-se impressionantemente confirmado no relato do padre Hélio, sobre o ocorrido na véspera do falecimento de D. Luciano:

Aconteceu de, no sábado, a enfermeira nos dizer que D. Luciano estava prestes a voltar à consciência – coisa da dosagem dos medicamentos terminando e ele, de tardezinha, chegou a acordar. Falei, então, ao Padre Alec para celebrarmos na UTI, no que tivemos assentimento dos médicos. Padre Alec estava presidindo e, segundo a equipe médica, D. Luciano acompanhava-nos ouvindo. A missa foi transcorrendo, enquanto nosso Arcebispo era submetido à diálise. De súbito, justamente na hora da Consagração, padre Alec consagrava o pão, transformando-o no corpo de Cristo, e quando elevou o cálice para a transubstanciação do vinho, inexplicavelmente a máquina da diálise soltou uma mangueira ou algo assim e, segundo a enfermeira, ela também não soube explicar, justamente naquele momento em que o sacerdote elevava o cálice com o sangue de Cristo, na mesinha que a gente estava utilizando, lá, ao lado da máquina da diálise, se esparramou o sangue de Dom Luciano, pondo-se a enfermeira a limpar tudo, de imediato. Nós não paramos a celebração, e ao seu término tudo estava limpo e a máquina funcionando normalmente de novo. A enfermeira não soube explicar, mas Deus sabe o que aconteceu! Era Dom Luciano entregando, ali, também o seu sangue, misturando-se, ele próprio, inteiro, ao sangue de Cristo, pelos pobres e pelos povos, pelos quais tanto rezava. Tudo isso aconteceu no sábado, à véspera de sua morte, morte física melhor dizendo. No domingo, [27 de agosto] às 18h.10, ele veio a falecer, passando à vida eterna.[9]

 


[1] Depoimento do padre João Batista Libânio. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Deus é bom: homenagem a Dom Luciano. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2006.

[2] ALMEIDA, Luciano Mendes de Almeida de. Deus chamou minha irmã. Folha de São Paulo, 4 mar. 2006.

[3] ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 85; p. 98.

[4] Depoimento de D. Luiz Demétrio Valentini. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Op. Cit. p. 117.

[5] SIMÕES, Neusa Quirino. “Em nome de Jesus” passou fazendo o bem... Lembranças de D. Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2009. p. 59.

[6] SIMÕES, Neusa Quirino. Op. Cit. p. 59; 61.

[7] Depoimento de D. Antônio Celso de Queirós. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Op. Cit. p. 112.

[8] Depoimento de padre Lauro Versiani Barbosa. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 865.

[9]  Depoimento de padre Hélio. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 866-867.