Síntese histórica

Em abril de 1988, poucos meses após sua eleição como presidente da CNBB, era oficialmente comunicada a nomeação de Dom Luciano como arcebispo de Mariana, arquidiocese-primaz do estado de Minas Gerais, mas, naquela ocasião, sem maior visibilidade política no cenário nacional. Tal transferência talvez decorresse, cogitaram analistas sociais e vários integrantes da Igreja, de uma certa suspeição por parte de alguns setores do Vaticano quanto às linhas pastorais priorizadas por D. Luciano, vinculadas às pastorais populares:

A CNBB passa a ser sistematicamente preterida no encaminhamento de questões centrais da vida eclesial, e importantes figuras do episcopado brasileiro foram mantidas em lamentável ostracismo. Dom Luciano também vive momentos difíceis de solidão e dor. Era para ele difícil entender as razões de tais restrições. O caminho perseguido era o mais evangélico possível. [...] Não há como esquecer o apoio dado pela CNBB às CEB’s, num momento em que elas sofriam pesadas incompreensões, no apoio dos anos 80.[1]

A transferência de D. Luciano não deixou de constituir-se “[...] um grande espanto para muitos”, como narrou a teóloga Maria Clara Bingemer: “sua nomeação como bispo de Mariana, no interior de Minas Gerais [...]. Sua capacidade permitia esperar que fosse titular de uma grande diocese, centro importante de irradiação para todo o país e para a Igreja Universal. Jamais se ouviu de sua boca um comentário a respeito”.[2] Também de acordo monsenhor Antônio Rômulo Zagotto, presbítero da diocese de Cachoeiro de Itapemirim, “Pela sua capacidade e projeção, [D. Luciano] poderia ter sido nomeado para cargos importantes e feito carreira, quem sabe, em Roma. Foi para Mariana, para espanto e admiração de todos! Sem desmerecer Mariana... Pensava-se para ele a sede de Salvador, para depois fazê-lo cardeal. Mas não!”[3] Sintetizando a consternação geral, o periódico Estado de São Paulo publicou: “Esperava-se que o presidente da CNBB fosse nomeado arcebispo de Salvador e em seguida cardeal, quando João Paulo II o mandou para Mariana. Embora se tratasse de uma das dioceses mais antigas e tradicionais do Brasil, essa designação foi atribuída a uma suposta falta de consideração do papa”.  D. Luciano discordou: ‘Estou em paz, feliz em obedecer e desejoso de servir’, reagiu, ao assumir a nova missão”.[4] Também seu irmão, referindo-se, tempos depois, a esta mesma situação, apresentou uma visão bem mais nuançada: “A Luciano, nos seus últimos anos, foram oferecidas arquidioceses conducentes ao cardinalato, e em especial a de Brasília. Mas o Arcebispo delas declinou, na tranquilidade da ação pastoral da sua Mariana, às vésperas dos seus 75 anos, quando apresentou a proposta da renúncia, oferecida a Bento XVI, que calorosamente pediu-lhe a continuação do trabalho no seu chão de entrega”.[5]

D. Luciano, tornava-se, assim, o novo pastor da Arquidiocese de Mariana, que na época congregava 110 paróquias em mais de 70 municípios. Apesar de apresentar-se disponível para a nova designação – “É com grande alegria que desejo me dedicar ao povo de Mariana. Não há diferença de lugar se consideramos a intenção de quem quer servir. Onde há um povo há razão de ser para quem quer entregar-se como pastor” –,[6] o episcopado de D. Luciano em Mariana mostrou-se, de início, não isento de tensões, face às mudanças que o novo arcebispo considerava importantes de serem empreendidas: “O que se tem visto é que os mineiros são naturalmente religiosos, muito apegados a suas tradições e têm um grande equilíbrio em sua maneira de agir. [...] Algumas regiões, sobretudo as mais industrializadas, que recebem maior número de pessoas, criam novas situações pastorais. Situações difíceis [...] acho necessário haver um novo direcionamento de algumas posições da igreja em Minas, principalmente em se tratando da Arquidiocese em que irei atuar”.[7]

Porém, desde sua chegada à nova Arquidiocese, D. Luciano foi paulatinamente reelaborando  as proposições que trouxera, em função da nova realidade que passava a conhecer:

Não é que a gente chegou e disse assim: ‘vamos implantar’, mas é que a gente viu tanta criança pela rua, tanto jovem tomando conta de carro, brigando, roubando, triste, então não dava. Foi uma necessidade, não foi planejamento teórico. Tanto que custamos a iniciar alguma coisa, porque não sabíamos bem por onde começar. Vamos ver o terreno, ver como é que está... (inaudível), quando em São Paulo na área da região Belém nós tínhamos cem centros nas periferias e aqui estávamos começando. Havia dez mil crianças comigo nesses centros, tudo dirigido por leigos. Aqui foi preciso aceitar a realidade, ver o que cabia. Não havia tanta criança abandonada como em São Paulo, mas havia um pouco de desânimo.[8]

O discernimento de alternativas para o exercício de um pastoreio mais voltado à especificidade de sua nova Arquidiocese, adveio, em grande parte, do contato direto mantido por D. Luciano com a vivência cotidiana da fé em paróquias e comunidades, o que logo trouxe resultados palpáveis, como indicado por ele em 1995:

Uma pergunta bem concreta é a de como atuam os leigos na Arquidiocese de Mariana. Tenho profundo respeito pela ação de Deus no coração dos fiéis. Grande parte dos católicos recebeu a fé no seio de famílias tementes a Deus, num ambiente de muita religiosidade. Esta fé permanece atuante e se expressa de vários modos: na frequência aos sacramentos, na oração em família, na veneração aos falecidos, nas visitas e romarias aos santuários, nas procissões, nas pertença às irmandades. Nos últimos anos, vem crescendo a catequese permanente e renovada, a liturgia mais vivenciada e a diversidade de serviços e ministérios, à luz das orientações do episcopado nacional.[9]

De acordo com padre Douglas, uma das vantagens de D. Luciano na condução pastoral de Mariana é que ele, apesar de sua afinidade com as pastorais de promoção humana e sociopolíticas, ele não impôs suas idéias:

Se viesse uma pessoa também muito avançada, mas que não soubesse dialogar com esse passado da Diocese de Mariana, poderia haver um conflito que redundasse não no crescimento da Diocese, mas num impasse, e não foi o que aconteceu. Ele realmente conseguiu fazer uma mudança, a meu ver, uma mudança na Diocese de Mariana, com o mínimo de tensões possível; aconteceram tensões, é claro, mas elas foram menores do que se fosse alguém com o perfil dele, mas sem o tato dele. [10]

Foram muitas, assim, as instituições criadas ou reorganizadas durante o episcopado de D. Luciano em Mariana, entre as quais podem ser citadas o Centro Promocional Padre Ângelo e o Centro Pastoral do Menor, na cidade de Ouro Preto, bem próxima da sede diocesana; o Grupo de Integração Social (GIS); a reabertura e a instituição de um CTI na Santa Casa de Misericórdia; a Casa da Figueira, dedicada a pessoas portadoras de necessidades especiais; a Comunidade Educativa Popular Agrícola – CEPA, que auxilia os pequenos agricultores a encontrar soluções viáveis para a sua permanência no campo; o apoio às Obras Sociais de Auxílio à Infância e à Maternidade Monsenhor Horta, fundada e dirigida pelo Monsenhor Vicente Diláscio; o apoio ao Núcleo de Apoio ao Toxicômano (NATA), à Casa Nossa Senhora do Silêncio, na cidade de Itabirito, e à Comunidade Terapêutica Bom Pastor, na cidade de Ouro Branco, todas destinadas à recuperação de dependentes químicos; o Centro Profissionalizante São José; o Centro de Valorização da Vida – CEVAVI... Mas coordenar todas essas atividades não o impediu, conforme publicado na Revista Isto É, de fazer-se presente em “[...] hospitais para ajudar doentes e socorrer drogados. Continua obcecado em recolher menores abandonados. Não chega em casa antes das 11 horas da noite e, muitas vezes, vara a madrugada atendendo a fiéis que lhe pedem conselhos, bênçãos ou ajuda material. Depois, ainda leva as pessoas para casa de carro. ‘Se me sobrasse um tempinho, juro que eu me dedicaria a tocar violino ou jogar xadrez’, afirma.” [11]

Dessa maneira, após quase duas décadas à frente da Arquidiocese, a apreciação de D. Luciano sobre a sociedade e a religiosidade mineira mostrava uma sintonia bem maior do que a apresentada na entrevista de 1988, vindo o arcebispo a mencioná-la como uma “[...] fase tão recente, tão querida de Mariana, porque realmente aprendi a ver as qualidades, não só do povo, mas das pessoas com quem eu vivo”.[12]

 


[1] Depoimento de Faustino Teixeira. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 469.

[2] Depoimento de Maria Clara Bingemer. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Deus é bom: homenagem a Dom Luciano. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2006. p. 271.

[3] Depoimento de monsenhor Antônio Rômulo Zagotto. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Op. Cit. p. 143.

[4] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 875.

[5] Depoimento de Cândido Mendes. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 475.

[6] ALVES, Carlos Eduardo. D. Luciano não considera ‘exílio’ a sua transferência para Mariana. Folha de São Paulo, 8 abr. 1988. p. 10.

[7] ALMEIDA, Luciano Mendes de. [Entrevista]. Jornal de Domingo, Belo Horizonte, 1988.

[8] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: Diego Omar da; OLIVEIRA, Fabrício R. Costa; FERREIRA, Rodrigo Souza. IN NOMINE JESU: Entrevista com Dom Luciano Mendes de Almeida. Cadernos de História: publicação do corpo discente do Departamento de História da UFOP. Ano I, N. 2, set. 2006p. 16.

[9] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Entrevista digitada ao Pe. Fernando Torres, cmj, revista Mision Abierta. 11 jun. 1995. Mimeo.

[10] Depoimento do padre Douglas. Apud: OLIVEIRA, Fabrício Roberto Costa. Religião e mobilização social na Arquidiocese de Mariana – MG. Tese (Pós-Graduação em Extensão Rural). Viçosa, Universidade Federal de Viçosa, 2005. p. 125.

[11] Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Op. Cit. p. 271.

[12]  ALMEIDA, Luciano Mendes de. Palavras de agradecimento. In: PAUL, Cláudio (org.). Doctor Amoris Causa: homenagem a Dom Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2007. p. 47.