Síntese histórica

Um aspecto volta e meia indagado a D. Luciano, nas entrevistas que concedia, dizia respeito à sua vivência familiar. “Nasci”, respondia ele, “no Rio de Janeiro, em 5 de outubro de 1930, de uma família bem enraizada na cidade”,[1] que primeiro residia à rua “Honório de Barros [...] e depois [à] Marquês do Paraná, [numa das] casas de jardim entre o cimento e a grama de junquilho”.[2] Mas “bem enraizada” é uma expressão um pouco modesta para designar a posição social ocupada pelos familiares de D. Luciano no cenário político e cultural brasileiro a partir da segunda metade do século XIX: “Descendente de uma linhagem com raízes na nobreza brasileira, o menino Luciano Pedro [era] [...] bisneto do jurista e senador Cândido Mendes de Almeida, figura de projeção no reinado de D. Pedro II e tataraneto do Marquês de Paraná. [...] Era filho de Cândido Mendes de Almeida [Júnior] e de Da. Emília de Mello Vieira Mendes de Almeida”.[3] O nome herdou de seu tio materno, Luciano Pedro, morto em acidente aéreo durante a I Guerra Mundial.[4]

Sobre seu pai, falecido em 1962,[5] D. Luciano escreveu:

[...] era um homem afeito ao trabalho [...] Dividia seu tempo entre a dedicação às artes gráficas, ao ensino e à direção da Academia de Comércio, da Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas, e da Faculdade de Direito, criada mais tarde, sempre no vestuto casarão da Praça XV. Essas ocupações absorviam, não raro, as horas da noite, até de madrugada. [...] Atuou no Jornal do Brasil, publicou a revista Excelsior, colaborava no Correio da Manhã, lecionava técnicas jornalísticas na PUC e, em especial, lançou o encarte Singra, que circulava, aos domingos, em mais de 60 jornais [...] mostrava-se reservado em suas práticas religiosas, mas era um homem de fé.[6]

Não eram menores, por sua vez, os afazeres de sua mãe:

Nós éramos sete irmãos, cinco homens e duas moças; apesar disso, minha mãe consagrava uma boa parte da tarde de cada dia à formação religiosa dos alunos das escolas do Estado. Isso durante 50 anos. Ela morreu de tumor cerebral [em 1973], depois de três cirurgias. Era uma pessoa de fé, de boa formação religiosa: formou-se em Paris, na Sorbonne, e depois fez cursos de especialização teológica. Missa e comunhão diária, mesmo que tivesse muitas coisas a fazer e também problemas de saúde. Era isso que lhe dava força.[7]

Em maio de 2006, por ocasião do recebimento do título de doutor honoris causa em Teologia pela Faculdade dos Jesuítas (FAJE), em Belo Horizonte, D. Luciano frisou, com alegria, que a união tal almejada por sua mãe entre os membros da família continuava a perdurar através de gerações:

Somos uma família muito marcada pela mãe que Deus nos deu, pelo pai. Procuramos, naturalmente, nos querer bem, nos ajudar. Peço a Deus que sejamos sempre unidos, como minha mãe pedia. [...] meu irmão Luís [...] meu irmão mais velho, Cândido Antônio [...] o Luis Fernando, com a Madalena, sua esposa. E a Cecília [...] meu irmão Antônio Luís, se quiser, o mais simpático, e [a irmã] Maria da Glória, com a Lúcia. [...] meu xará Luciano, que me levou o nome, com Simone, que representa meu irmão Teo [João Teotônio], que faleceu há muitos anos e ficou sempre impresso dentro de mim. E uma presença querida, pertinho de Deus, da minha irmã Elisa, que como sabem, há pouco mais de um mês Deus levou.[8]

Mas o termo “família”, para D. Luciano, tinha significados bem mais amplos do que a união de sangue, mesclando passado e presente, solidariedade e gratuidade: “Minha família, porém, não é só esta. Hoje ela é constituída por muitas pessoas, que pertencem ao mesmo âmbito de amizade e de amor. Não só coirmãos jesuítas, os membros da arquidiocese de São Paulo e Mariana, mas também muitos pobres que, neste momento, tenho diante de meus olhos com os seus rostos sofridos, vítimas da fome e da injustiça social, mas tão carinhosamente ligados a minha pobre vida”.[9]

 


[1] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Apaixonado por Cristo e pelos pobres [Entrevista com D. Luciano Mendes de Almeida]. Mundo e Missão, set. 2001. p. 20.

[2] MENDES, Cândido. Dom Luciano, o Irmão do Outro. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2007. p. 20.

[3] SIMÕES, Neusa Quirino. “Em nome de Jesus” passou fazendo o bem... Lembranças de D. Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2009. p. 23.

[4] SORRENTINO, Francesco. “Em que posso servir?” A vocação cristã como serviço no testemunho e nos escritos de Dom Luciano Mendes de Almeida. Dissertação (Mestrado em Teologia). Belo Horizonte: Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, 2014. p. 18.

[5] ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 87.

[6] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Meu pai. Folha de São Paulo, 27 maio 1995.

[7] DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 20.

[8] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Palavras de agradecimento de Dom Luciano. In: PAUL, Cláudio (org.). Doctor Amoris Causa: homenagem a Dom Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2007. p. 44.

[9] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 20.