Síntese histórica

Justamente por ser considerado um “[...] grande inspirador de iniciativas pastorais”, além de “fomenta[r] o diálogo como forma de buscar o entendimento entre posições que poderiam parecer inconciliáveis”, conforme o retrato traçado por D. Geraldo Majella Agnelo,[1] D. Luciano foi escolhido para integrar, num total de 16 anos, a direção colegiada da Confederação Nacional dos Bispos de Brasil:

Na Assembléia da CNBB de 1979, fui eleito como secretário e fiquei oito anos [1979-1987]; depois fui nomeado presidente e foram mais oito anos [1988-1995]. Esse período cobre um período de tempo bastante árduo pela perseguição dura dos militares contra a Igreja. Nessa época, começaram também a serem assumidos com mais consciência e determinação os grandes desafios do nosso país: o empobrecimento forte e rápido do nosso povo, o problema das populações indígenas, das culturas afro-brasileiras e, consequentemente, todas as grandes questões da justiça social, da inculturação e também a progressiva abertura ecológica. [...] houve uma abertura de programação pastoral e de diretrizes gerais e de vivacidade no ambiente da vida comunitária. [2]

Tais funções foram seguidas pela vice-presidência do Conselho Episcopal Latino-Americano, entre 1995-1998:

Também o Brasil se abriu para essa convivência de América Latina e, nos últimos anos, de América. Pessoalmente, foi em Puebla que entrei nessa dimensão, porque participei da comissão de coordenação, que tinha cinco representantes das várias partes do continente. Foi uma experiência muito forte, um trabalho novo, exigente. Nos anos 90, fui vice-presidente do CELAM, e na Conferência de Santo Domingo, foi nomeado presidente da comissão de redação, trabalhando sobretudo na segunda parte do Documento final (promoção humana) e na extensão das Linhas Pastorais prioritárias e da oração.[3]

A atuação de D. Luciano em Puebla e Santo Domingo mostrou-se decisiva para a aprovação dos documentos de tais Conferências de forma mais dialógica com as culturas latino-americanas, mais comprometida com as causas populares e mais valorizadora da atuação eclesial dos leigos. Em Puebla, D. Luciano foi indicado, por voto unânime, como descrito por ele,

[...] para entrar na ‘Comissão do Empalme’ – algo como uma comissão de ‘engate, de encaixe’. [...] Formaram-se 20 grupos, cada um com 20 dos 400 participantes. [...] alguns livros, um pouco de água, um quadro-negro e um dia inteiro para trabalhar. [...] Quando se deu a reunião noturna para fundir os 20 esquemas, foi a resistência física que mandou [...] No final, ficamos três: Bambarén, McGrath e eu. Dom Trujillo e Dom Aloísio foram dormir. [4] [...] Às três da manha não tínhamos o esquema ainda. Mas pudemos ver que a contribuiçãozinha do Brasil estava lá: ‘Comunhão’, ‘Participação’. [...] Surgiram depois no esquema o Ver, Julgar e Agir, com o que foram trabalhados os termos “Evangelização’ e a sua relação com a Libertação. Afinal, o esquema tinha agora as palavras trazidas por João Paulo II: família, vocações, jovens. [...] Meu Deus, esquecemos os pobres. Aí, às quatro da manhã, põe os pobres antes dos jovens... Nasceu a palavra preferencial como uma correção esquemática. [...] Foi puro Espírito Santo, porque ninguém tinha mais nada para dar. [...] Consequência: aquilo foi aprovado em poucos minutos por toda a Assembléia, para grande escândalo nosso [...].[5]

Já Santo Domingo, conforme comentário de Dom Jorge Enrique Jiménez Carvajal, ex-presidente do CELAM,

[...] o nome providencial [...] foi D. Luciano Mendes de Almeida [...]. Penso, particularmente, que Roma estava muito desconfiada do que poderia ocorrer na Conferência, e com a presença, na 1ª. Presidência, do Secretário de Estado, o clima ficou tenso, difícil mesmo. Ele tinha em mente a metodologia dos Sínodos Episcopais de Roma, [...] que devem produzir proposições ao Santo Padre, não um documento, e o Santo Padre, por sua vez, depois de um ano, produz o Documento, uma Exortação Apostólica. Já nas Conferências Gerais, como as nossas, sai um Documento. E Roma tem confiança em que o façamos. Assim, tivemos um problema muito sério na metodologia por causa dessas concepções diferentes. Estava difícil de conciliar e fazermos um Documento, mas D. Luciano, como presidente da Comissão de Redação, lutou e conseguiu. [...] D. Luciano, especialmente, trabalhava muito após a meia-noite, e trabalhou à noite, sozinho, na última semana.[6]

Tratou-se, efetivamente, de um embate, que exigiu certa intrepidez a D. Luciano, descrita pelo padre Oscar Beozzo:

Na abertura da sessão de encerramento da manhã daquele último dia, D. Luciano, atropelando o regulamento, adiantou-se e tomou o microfone, leu sua página de síntese e rezou a oração que havia elaborado. Recebeu um prolongado, caloroso e reconhecido aplauso da assembléia, que se sentiu reconhecida e contemplada naquele epílogo lúcido e generoso [...] De nada valeu a interpelação do Secretário da Conferência, D. Jorge Medina, que rude e descontroladamente pedia contas a um calado Dom Luciano: ‘Com que direito ele havia se dirigido à Assembléia, ao arrepio da Presidência e sem a anuência da Secretaria-Geral?’ Na síntese de Dom Luciano e no aplauso ao concluir sua oração, ficara aprovado o documento de Santo Domingo.[7]

Além disso, ao longo dos seus 30 anos de episcopado, D. Luciano foi também eleito delegado de muitos fóruns norteadores do catolicismo na época contemporânea: em 1977, ele participou da Assembléia Especial do Sínodo dos Bispos para a América; nos anos 1980, 1987, 1990, 1994, 2001 e 2005, esteve presente nas Assembléias do Sínodo dos Bispos, periodicamente realizadas em Roma. Mais: integrou a comissão da Secretaria do Sínodo (setor responsável pela preparação do Sínodo seguinte) entre 1987-1990, bem como foi escolhido como membro do Pontifício Conselho de Justiça e Paz entre 1996-2000.  Segundo o padre Geraldo Martins Dias, “sua prática de Igreja [de D. Luciano] sempre foi muito mais amplas, ele atravessou fronteiras, sendo adequado ressaltar que foi o único bispo que participou de onze Sínodos.[8] Referindo-se ao emprego da escrita por D. Luciano nestes encontros, D. Geraldo Lyrio Rocha destacou:

O que mais sobressai de D. Luciano para a Igreja mesmo é o traço de caridade, mas ao mesmo tempo as participações dele nos grandes eventos eclesiais, com sua inteligência prodigiosa e uma capacidade de sistematizar de forma extraordinária. Exemplifico com a participação dele no Sínodo da Eucaristia – 2005, quando já se apresentara a Mensagem que o Sínodo dirige a toda a Igreja: Dom Luciano virou a noite procurando dar um ordenamento melhor à mesma. Então, na manhã seguinte, procurou o coordenador da Comissão responsável pela Mensagem e apresentou o resultado de seu trabalho que foi imediatamente assimilado e aceito. Havia ali, agora, uma ordem mais lógica no texto.[9]


[1] Depoimento de D. Geraldo Majella Agnelo. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 877.

[2] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Apaixonado por Cristo e pelos pobres [Entrevista com D. Luciano Mendes de Almeida]. Mundo e Missão, set. 2001. p. 24.

[3] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 24.

[4] O padre José Oscar Beozzo fornece maiores informações sobre este grupo: “Uma comissão de cinco membros, eleita pela Assembléia, em vez de ser nomeada, como previa o regulamento, foi encarregada de organizar o material e fazer uma proposta de roteiro de trabalho para a manhã seguinte. D. Luciano foi o escolhido pelo Brasil, ao lado do peruano Bambarén para a região andina, do panamenho Mc Grath para a América Central e México e outros dois pelo Cone-Sul e Antilhas. A Comissão conseguiu organizar e dar articulação e rumo às sugestões, reunindo-as em torno de quatro núcleos e um eixo norteador, ‘Comunhão e Participação’, proposto por Dom Luciano”. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Deus é bom: homenagem a Dom Luciano. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2006. p. 155.

[5] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 300-301.

[6] Depoimento de Jorge Enrique Jiménez Carvajal. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 439.

[7] Depoimento do padre Oscar Beozzo. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Op. Cit. p. 157.

[8] Depoimento do padre Geraldo Martins Dias. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 443.

[9] Depoimento de D. Geraldo Lyrio Rocha. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 561.