Síntese histórica

Em maio de 1976, D. Luciano foi sagrado bispo-auxiliar da diocese de São Paulo, pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns. “Naquela oportunidade”, relata D. Luciano, “D. Paulo me dirigiu uma palavra que me influenciou muito. Disse que ele achava que eu havia estudado muito, tinha-me formado e era professor, sacerdote, formador e rezava. Faltava-me uma coisa, o povo de Deus, e a vida de ministério episcopal me daria a presença do povo, o amor pelo povo. [...] Em relação ao trabalho desenvolvido, uma pequena especialidade foi receber não só uma área geográfica, que a Região Leste, mas também o setor. Foi aí que nasceu a Pastoral do Menor [...]”.[1]

A partir de então iniciou-se um novo período na atuação de D. Luciano junto às populações empobrecidas, que estendido até 1988, foi caracterizado, conforme descrito pelo historiador Riolando Azzi, pela criação de “[...] mais de cem centros [comunitários] nos diversos cortiços e favelas de São Paulo, expressão de um compromisso social com os menores carentes. Foram fundadas nos bairros diversas Casas do Menor, a fim de receber meninos e meninas egressos da FUNABEM [Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor], mas sem ter famílias que os amparassem”. [2] Além da Pastoral da Criança e da Pastoral do Menor, D. Luciano foi também responsável por várias iniciativas, como a fundação do Arsenal da Esperança, da Casa São Marinho, da Casa Vida, do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, do pastoreio em Vila Prudente, do Movimento de Defesa do Favelado – MDF.[3]

Os desafios eram imensos, mas D. Luciano não os considerava intransponíveis, se enfrentados a partir de um engajamento de fé:

Foi nesta experiência que eu... fui chamado depois à Zona Leste de São Paulo, em 1976. Uma área muito povoada, dois milhões de habitantes e uma população muito sofrida, especialmente por três situações: a primeira era a da periferia pobre, onde o pobre procurava chão, mas tinha que construir a sua casa muito de vagar e afastada do lugar de seu trabalho, por isso uma grande pobreza. Muito do dinheiro ganho ia para transporte, construção e não alimentação. O segundo grupo já morava mais perto das favelas, o que diminuía a custo do transporte, gastava um pouco mais com alimentação e não pagava o chão porque era favela. Mas... uma grande promiscuidade, sofrimento e violência. O terceiro grupo morava praticamente dentro do centro em casas velhas, chamadas cortiços, onde não havia o custo do transporte e havia, sim, um aluguel que era alto para a pequena área de um quarto e a alimentação também era um grande drama. Resumindo, essa três áreas de carência, de necessidade multiplicaram os casos de juventude desamparada. E foi assim que em 1976 e 77, unindo alguns padres e leigos, nós iniciamos lá, com a inspiração de D. Paulo Evaristo o trabalho que depois teve esse nome: Pastoral do Menor, que agora, como percebem, tem quase trinta anos. Esse trabalho se estendeu muito para a Região Leste e outras regiões de São Paulo e nos marcou a todos, o fato que esses jovens podiam ser recuperados e até mesmo preservados, se houvesse um trabalho organizado para ajudá-los. E foi nessa atividade que me encontrei envolvido por quase doze anos, com um grande número de colaboradores.[4]

Justamente, um dos traços mais relevantes na atuação de D. Luciano junto à Arquidiocese de São Paulo foi a captação do apoio de inúmeros setores católicos, sobretudo dos leigos e da vida religiosa feminina, o que suscitou uma valiosa dinamização eclesial no Brasil, como descreve Olga Zanela: “D. Luciano abriu espaço para várias congregações trabalharem, nas pequenas comunidades, [...] em missão de fronteira. [....] Os desafios eram tantos! Era época da ditadura militar... da Teologia da Libertação... o povo estava abandonado nas periferias”.[5] Também a animadora de pastoral Lurdinha destaca as frentes abertas por D. Luciano para o protagonismo de novos agentes na Igreja paulista: “Dom Luciano fora sagrado bispo em 1976. Era uma época em que, em todas as reuniões dos religiosos, D. Paulo Evaristo  Arns, cardeal de São Paulo, e D. Luciano, bispo-auxiliar, estavam presentes, convocando as irmãs para que viessem fazer um trabalho social nas periferias e ali morassem. Até então, normalmente, o trabalho era em colégios particulares, escolas de um modo geral, em hospitais e orfanatos. Tratava-se de um desafio ao qual as religiosas aderiram”.[6]

E dentre as muitas experiências pastorais bem sucedidas sob o episcopado de D. Luciano em São Paulo, uma delas mostrava-se particularmente querida por ele, por entrecruzar, de forma modesta, mas profundamente autêntica, a valorização do menor, que lhe era tão cara, com a nova ação evangelizadora desempenhada pelas religiosas e por leigos:

O Jardim Sinhá é um bairro da periferia de São Paulo. [...] Que tem de especial? É que em poucos anos, o povo de Sinhá, a partir das crianças, fez uma caminhada notável. Era uma área de favela confinada num grotão unido. Lugar perigoso [...] Centenas de menores corriam pelas vielas e passavam fome brincando na lama malcheirosa. [...] Nesta época, duas religiosas a serviço da paróquia de Fátima começaram a visitar as famílias. [...] Para elas, no entanto, o importante eram as crianças. Comprou-se um pequeno terreno. Pessoas amigas, com o auxílio das próprias crianças, construíram um salão. Tornou-se o lugar preferido dos menores. Jogos, cantos, pequenos trabalhos. Veio a sopa, depois a catequese, a reunião dos pais. [...] Mudou a atmosfera. Diminuíram as brigas e o medo. As pessoas se saudavam. Uns visitavam os outros. Vários barracos melhoram [...] Hoje, são três as religiosas. Moram no próprio Jardim Sinhá. São amadas por todos. As crianças amam o centro. [...] No meio de tanta notícia ruim, vale a pena pensar no Jardim Sinhá.[7]

Mas, talvez, o melhor recurso para sintetizar a atuação de D. Luciano à frente da arquidiocese paulista seja a transcrição dos propósitos que ele mesmo apresentara, alguns anos após sua nomeação como bispo-auxiliar, como inspiradores à sua trajetória episcopal: “Diante das angústias e aspirações do mundo em que vivemos, peço a Deus a graça de atuar na conversão dos homens do egoísmo ao verdadeiro amor, sem conformismo inoperante, nem a impaciência dos violentos, para que as estruturas da sociedade correspondam cada vez mais à dignidade dos filhos de Deus, e sejam anúncio da felicidade que Deus nos reserva”.[8] Segundo o professor da USP Augustin Wernet, já falecido, tratava-se de um “[...] projeto ambicioso, formulado em linguajar simples de cunho bíblico. Os termos progressista e conservador não eram muito apropriados para caracterizar D. Luciano. Ele era um radical de cunho religioso. Pessoa de diálogo e conciliador, procurava [...] viver e pôr em prática princípio e fundamentos que têm suas raízes na vida de Jesus Cristo e na mensagem bíblica [...]”.[9]

 


[1]  ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Apaixonado por Cristo e pelos pobres [Entrevista com D. Luciano Mendes de Almeida]. Mundo e Missão, set. 2001. p. 23.

[2] Depoimento de Riolando Azzi. Apud: ARROCHELLAS, Maria Helena. Deus é bom: homenagem a Dom Luciano. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2006. p. 255.

[3] ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 180; 221.

[4] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: SILVEIRA, Diego Omar da; OLIVEIRA, Fabrício R. Costa; FERREIRA, Rodrigo Souza. IN NOMINE JESU: Entrevista com Dom Luciano Mendes de Almeida. Cadernos de História: publicação do corpo discente do Departamento de História da UFOP. Ano I, N. 2, set. 2006. p. 3-4.

[5] Depoimento de Olga Zanela Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 206.

[6] Depoimento de Lurdinha. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 229.

[7] ALMEIDA, Luciano Mendes de. O Direito de Viver. 2. ed. São Paulo: Paulinas,1987. p. 46-47. Em uma homilia, D. Luciano afirmou sobre o Jardim Sinhá: “Penso que os que estiveram no Brasil, particularmente em São Paulo, tenham feito uma visita a um dos bairros mais pobres, onde estão as favelas. E que tenham visitado um lugar chamado ‘Sinhá’ – Sinhá é uma palavra antiga que significa ‘Senhora’ –, onde vivem hoje mais de 20.000 pessoas. Ali, três irmãs trabalham junto ao povo, com as crianças, que já são trezentas. Faz anos que moram naquele lugar e fazem grande bem”, cf. OLIVERO, Ernesto. Unidos em favor da paz: diálogos com D. Luciano Mendes de Almeida. Op. Cit. p. 134. Homilia da missa de 21 de outubro de 1989, para a comunidade do SER.MI.G.

[8] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: SIMÕES, Neusa Quirino. “Em nome de Jesus” passou fazendo o bem... Lembranças de D. Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2009.Op. Cit. p. 49.

[9] Depoimento de Augustin Wernet Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 845.