Síntese histórica

Desde 1966, D. Luciano viu-se responsável, entre outras atividades acadêmicas, pela Coordenação de Estudos da Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, na cidade de São Paulo. Seu principal intuito foi o de aí constituir um centro intercongregacional de estudos superiores, conforme descrito pelo padre Bersch: “Homem de grande visão intelectual, Pe. Mendes quis fazer da Medianeira um centro de pensamento que abarcasse intelectuais de outros centros universitários de renome na cidade”.[1] Dessa maneira, conforme narrado pelo próprio D. Luciano,

Voltando para o Brasil, lecionei por quase dez anos na Faculdade de Filosofia dos jesuítas em São Paulo e, simultaneamente, fiquei encarregado da formação de sacerdotes jesuítas. Foi aí que pude conviver um pouco com D. Hélder Câmara em Recife, porque a formação dos padres era de preferência naquela cidade. Tudo isso me aproximou muito dos padres, porque entre eles havia um anseio de encontrar uma densidade espiritual no exercício do ministério sacerdotal.[2]

Entre 1967-1968, D. Luciano passou a também lecionar Religião na Faculdade de Engenharia Industrial, em São Bernardo do Campo. No mesmo ano de 1968, a Faculdade Medianeira abriu seus cursos para leigos e, no início da década de 1970, começou a atender a um novo perfil de aluno, que trabalhando durante o dia, frequentava as aulas noturnas; face a este outro contexto, continua o padre Bersch, “[...] o testemunho cristão do Pe. Luciano Mendes se faz sentir em três novas direções: na cessão de bolsas de estudo para os alunos que não podiam arcar com a mensalidade escolar; na formação humanitária e cristã dos jovens alunos; e no posicionamento adotado junto aos alunos envolvidos em atividades que o governo julgava subversivas”.[3] Nas palavras de D. Luciano, “Nesse período, no Brasil, estávamos sob o governo militar e uma das minhas atribuições era ajudar na capelania universitária em várias faculdades. Foi uma época muito intensa, porque era o momento da perseguição, das arbitrariedades, das injustiças sociais, da tortura, infelizmente”.[4] Todo esse empenho, em conjunto com sua atuação na Companhia de Jesus, contribuiu para que D. Luciano fosse eleito vice-presidente da Confederação dos Religiosos do Brasil (CRB) de São Paulo entre 1973-1975.[5]

Retomadas por D. Luciano em situações bastante distintas, tais experiências no ensino superior mostram-se bastante performativas, como indica o depoimento de Pedro Paulo Christovam dos Santos sobre a atuação de D. Luciano, já como arcebispo de Mariana, nos derradeiros anos de vida: “[...] preocupado sempre com o Seminário, a ‘menina de seus olhos’, porque sabe, por formação, vida e convicção, da importância do estudo das Humanidades, da Filosofia e da Teologia para o trabalho pastoral de evangelização do terceiro milênio e para o diálogo autêntico e aberto com o fragmentado mundo contemporâneo”.[6] “Ainda hoje”, afirmava D. Luciano em 2001,

[...] continuo me preocupando com isso, porque é o caminho da humanidade, justamente a busca não só da verdade, mas do sentido profundo da vida humana. E a Filosofia terá sempre uma parte notável na grande sabedoria. Por outro lado, também me ajudou o fato de estar sempre fazendo Teologia e de fazer assim uma leitura ao mesmo tempo iluminada por ela, enquanto que alguns temas da Filosofia receberam um grande esclarecimento. [...] Aprofundei isso na tese de doutorado, ‘A imperfeição da inteligência humana segundo Santo Tomás’, ressaltando que o amor tem uma influência muito grande no processo cognitivo, como aparece na maneira da mãe conhecer o filho, isto é, a dimensão afetiva do ato cognitivo.[7]

Mostrava-se fundamental para D. Luciano, nesse sentido, que a vida universitária no Brasil viesse a integrar “a consciência da cidadania e da pertença a tudo aquilo que era iluminação da fé e a abertura criativa para o futuro”, em uma “mística do conhecimento, que não se faz apenas por um ato intelectivo, mas pela presença interna de Deus, que se comunica à pessoa humana”.[8]

 


[1] Depoimento do padre Bersch. Apud: SIMÕES, Neusa Quirino. “Em nome de Jesus” passou fazendo o bem... Lembranças de D. Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2009. p. 36.

[2] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Apaixonado por Cristo e pelos pobres [Entrevista com D. Luciano Mendes de Almeida]. Mundo e Missão, set. 2001. p. 23.

[3] Depoimento do padre Bersch. Apud: SIMÕES, Neusa Quirino. Op. Cit. p. 38.

[4] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 23.

[5] ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 178.

[6] Depoimento de Pedro Paulo Christovam dos Santos. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 738.

[7] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Apaixonado por Cristo e pelos pobres [Entrevista com D. Luciano Mendes de Almeida]. Mundo e Missão, set. 2001. p. 22-23.

[8] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 26.