Síntese histórica

“Mas por que jesuíta?” A resposta, para D. Luciano, não surgira de forma imediata, embora ele houvesse realizado seus “estudos fundamentais e médios no Colégio Santo Inácio do Rio, [...] de onde veio minha ligação particular com a Companhia de Jesus e também porque meu pai tinha sido aluno (o primeiro aluno inscrito) do Colégio”.[1] O critério de escolha, como explicitado por ele, foi sua profunda afinidade com a espiritualidade inaciana:

Inicialmente, eu pensava em ser dominicano, porque o padre espiritual que me acompanhara logo depois da primeira comunhão era um excelente dominicano, que depois teve de afastar-se, mas causou-me uma impressão muito grande; além disso, minha mãe era terciária dominicana e, ainda hoje, conservo grande afeição ao rosário, aos dominicanos, a tudo o que significa a contribuição dos dominicanos à Igreja. Mas o fato de ter o meu avô ajudado os jesuítas a voltarem ao Rio de Janeiro, depois de terem sido expulsos pelo governo, e o fato de eu mesmo ter estado seis anos num colégio de jesuítas, onde todos os anos fazia os Exercícios Espirituais, onde eu tinha um padre espiritual, onde aprendi a fazer discernimento espiritual – entenda-se: de modo muito adaptado a um jovem –, convenceram-me a acolher o convite [de ingressar na Companhia de Jesus] muito facilmente. Sinto-me muito bem entre os jesuítas, e tudo o que tenho, a pouca vida espiritual que tenho, recebi-o através da espiritualidade inaciana. Conservo por Santo Inácio uma devoção filial, porque parece-me verdadeiramente ser o homem que abre os caminhos da oração, do amor à Igreja e sobretudo o ideal missionário.[2]

Assim, descreve D. Luciano, “Com menos de 17 anos, em 1947, fui para Nova Friburgo, [estado do] Rio de Janeiro, onde era a casa de formação dos jesuítas. Fiz o noviciado, depois os estudos de retórica, a Filosofia e dois anos de estágio, lecionando no Seminário Menor dos jesuítas, na mesma cidade: no total, nove anos”.[3] A partir daí, D. Luciano foi enviado

[...] para Roma, onde fiquei de 1955 a 1958 (ano de minha ordenação sacerdotal), estudando Teologia na Gregoriana. Seguiu um ano de formação espiritual em Florença [1959], a chamada terceira provação jesuíta. Quando terminei, pensava em voltar para o Brasil, mas me convidaram a ajudar os estudantes no Colégio Pio Brasileiro; voltei então a Roma, onde fiquei até 1965. No mesmo período, estava fazendo um curso de [doutorado em] Filosofia e obtive dois anos para a redação da tese. [...] Em Roma, fiz também o curso de Teologia espiritual, porque havia a perspectiva de, voltando para o Brasil, trabalhar na formação, seja no ensinamento filosófico, seja na direção espiritual.[4]

Efetivamente, segundo o padre e historiador Oscar Beozzo, D. Luciano, desde o final dos anos 1950, quando ainda se encontrava em Roma, já atendia os alunos do Colégio Pio-Brasileiro em orientações espirituais.[5] Em 15 de agosto de 1964, em Roma, D. Luciano fez sua profissão solene, emitindo os quatro votos dos jesuítas professos, e no ano seguinte defendeu sua tese de Filosofia, voltando então, em 1966, para o Brasil, onde passou a atender, como orientador espiritual, vários estudantes jesuítas.[6] Em 1970, D. Luciano foi indicado instrutor da Terceira Provação no Brasil e, no triênio 1973-1975, Delegado Interprovincial das províncias brasileiras, tornando-se responsável pelo apostolado social, pelos meios de comunicação e pela formação.

Justamente em 1974, como relata D. Luciano, foi promovida a “Congregação Geral dos jesuítas [...] (a famosa 32º Congregação), onde tive que atuar como secretário”.[7] Sob tal encontro, dedicado à reordenação da Companhia de Jesus à luz do Vaticano II, D. Luciano considerou que “Ponto positivo constatado desde cedo foi o de que a preocupação principal em todos os trabalhos não eram os problemas internos da Ordem, mas a missão, os novos problemas que surgem do mundo contemporâneo”,[8] em claro indicativo do que, para ele, significava ser jesuíta:

[...] vontade de servir na Igreja, especialmente segundo a mística da espiritualidade inaciana, dentro de uma grande disponibilidade [...] A vocação do jesuíta [...] é a disponibilidade para servir, indo para qualquer lugar aonde seja mais necessário. [...] Disso eu vejo uma consequência na minha vida: quando eu estava em Roma, pensei em trabalhar na África, em Madagascar; e cheguei a mostrar essa inclinação. Depois, vindo para o Brasil, me prontifiquei para as missões no Mato Grosso, que naquela época eram difíceis. Mas queria ir também para o Japão, tanto que cheguei a aprender um pouco de japonês.[9]

Todavia, a atuação de D. Luciano entre os jesuítas viu-se paulatinamente reduzida a partir de 1976, quando ele foi sagrado bispo-auxiliar de São Paulo por D. Paulo Evaristo Arns. Devido à premência de seus novos compromissos como prelado, cada vez mais acrescidos por outros tantos cargos relevantes que veio a assumir, já não lhe era mais possível estar em comissões ou postos de liderança no interior Companhia. Mas os vínculos de D. Luciano com a espiritualidade inaciana perduraram inabaláveis ao longo de toda sua vida, inclusive por ele ter se tornado um dos maiores diretores espirituais e pregadores de retiro do Brasil,[10] conforme indicado pelo padre Marcelo Santiago, Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Mariana:

Quase todas as congregações religiosas, além de organismos e grupos, tiveram retiro pregado por ele. E mesmo com a agenda cheia, encontrava tempo para retiro de cinco dias em média. Eram de dez a quinze retiros por ano, e ele deve ter passado em mais de setenta dioceses no País. Dom Luciano sempre partia da experiência da formação inaciana, somando-se a esse fator a experiência de seu ministério. Todo mundo gostava, era um retiro existencial muito fácil que nos tocava bastante. Falava coisas tão profundas de Deus, de tal maneira que a nossa experiência aflorava forte, lembrando-nos de vários momentos pelos quais havíamos passado. A forma como pregava tocava-nos, levando-nos a dar um passo maior na fé; o que parecia difícil, ele deixava simples para entender.[11]

Convivendo entre jesuítas desde sua infância e optando por também tornar-se um deles, D. Luciano tinha especial afeto por “[...] tantos e tantos companheiros, irmãos jesuítas. [...] Aliás, esse nome é tão bonito: ‘companheiros’, ‘companheiros’! Realmente, uma experiência bonita de convivência”. [...] Cada um tem a sua história, cada um tem uma lembrança muito grande dentro de mim”.[12] Agradecido, D. Luciano dedicava as ave-marias de cada segundo mistério do terço, diariamente meditado por ele, à Companhia de Jesus, que lhe ajudara, “[...] do noviciado até hoje, a rezar, a desenvolver a espiritualidade inaciana, a fazer a crescer o ideal missionário, a ter um grande amor à Igreja e ao Papa como sucessor de Pedro, e sobretudo a encontrar Jesus como um chefe, um mestre, um amigo presente a toda hora”.[13]

 


[1] DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Apaixonado por Cristo e pelos pobres [Entrevista com D. Luciano Mendes de Almeida]. Mundo e Missão, set. 2001. p. 21.

[2] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: OLIVERO, Ernesto. Unidos em favor da paz: diálogos com D. Luciano Mendes de Almeida. Op. Cit. p. 33-34.

[3] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 22.

[4] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 22.

[5] SIMÕES, Neusa Quirino. “Em nome de Jesus” passou fazendo o bem... Lembranças de D. Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2009.p. 87-88.

[6] SIMÕES, Neusa Quirino. Op. Cit. p. 35. 

[7] SIMÕES, Neusa Quirino. Op. Cit. p. 56.

[8] ALMEIDA, Luciano Mendes de. A Congregação-Geral 32ª. da Companhia de Jesus. Síntese Nova Fase. Belo Horizonte. v. 2, n. 4. p. 111-118. jul./set. 1975. p. 117.

[9] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: DONEGANA, Costanzo e DIAS, Paulo da Rocha. Op. Cit. p. 23.

[10] ASSIS, Margarida Drummond de. D. Luciano, especial dom de Deus. Rio de Janeiro: EDUCAM, 2010. p. 66.

[11] Depoimento do padre Marcelo Santiago. Apud: ASSIS, Margarida Drummond de. Op. Cit. p. 107.

[12] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Palavras de agradecimento de Dom Luciano. In: PAUL, Cláudio (org.). Doctor Amoris Causa: homenagem a Dom Luciano Mendes de Almeida. São Paulo: Loyola, 2007.  p. 43.

[13] ALMEIDA, Luciano Mendes de. Apud: OLIVERO, Ernesto. Unidos em favor da paz: diálogos com D. Luciano Mendes de Almeida. Op. Cit. p. 49.